A questão da confiança

Mas quando será que os políticos compreendem que para manterem uma boa relação com os cidadãos têm de apostar numa atitude de confiança em que os cidadãos eleitores confiem no que os políticos fazem, ou dizem querer fazer? Se não existir confiança, e é o que mais acontece hoje, então ninguém acredita nos políticos e nas suas políticas.

Há algo que o ministro Nuno Crato não parece ter entendido acerca dos professores e da relação deles para consigo.

Na entrevista de ontem e em algumas declarações recentes parece transparecer uma certa mágoa, talvez mesmo uma espécie de ressentimento em relação àqueles que se vão revelando ingratos em relação ao seu papel como governante que, nas suas palavras na TVI24, nem sequer fez declarações negativas sobre a classe docente e sempre afirmou estimar os professores. ou algo parecido. E que até fez publicar um documento para a organização do ano lectivo de 2013-14 aparentemente menos triturador do que seria de esperar.

Mas…

Nuno Crato parece não ter ainda entendido que a atitude dos professores (e não só) em relação a este governo e a qualquer dos seus elementos é a de completa falta de confiança, pois sabe-se que nada parece ser um “valor absoluto” e tudo parece ser transitório, ao mesmo tempo que nenhum compromisso do Estado para com os cidadãos comuns (desde a aposentação aos apoios sociais, passando pelas relações laborais na máquina administrativa do estado) tem qualquer valor contratual para ser verdadeiramente respeitado.

Resumindo, não existe qualquer base sólida sobre a qual seja possível estabelecer uma relação de confiança com qualquer governante em exercício, crescendo, muito pelo contrário, a plena consciência de que não há qualquer pudor em justificar o desrespeito pela garantia de ontem com qualquer argumento oportunista e com uma estratégia, no essencial, parecida à que antes se criticava aos governos de José Sócrates.

No caso do governo de Sócrates, fomo-nos habituando, mesmo que desgostando, a um estilo de fuga à realidade próximo do delírio, em que se substituíam os factos pela sua enunciação. Ele anunciava o fim da crise coma  convicção de que das suas palavras nasceria o crescimento económico.

No caso do governo de Passos Coelho temos algo um tanto ou quanto diferente, pois parece que as coisas são ditas, logo à partida, com a convicção de que se tornarão em… nada. A enunciação não se substitui à realidade, não há qualquer delírio, mas apenas uma enunciação instrumental para ocupar espaço e tempo, até ser substituída por outra enunciação que, por se saber totalmente desfasada dos factos, nem sequer se preocupa em justificar minimamente a anterior falsa enunciação.

Sócrates fazia declarações descoladas da realidade na esperança que elas se concretizassem. Passos Coelho faz declarações descoladas da realidade na certeza que elas não se concretizam.

E no meio disto tudo, todos os elementos do seu governo, Nuno Crato incluído, aceitaram esta estratégia como válida e exercitam-na com maior ou menor habilidade, mas já com muito diminuta capacidade de convencimento de quem os ouve.

Este despacho de organização do ano lectivo existe, mas nada garante que não seja retorcido, adaptado ou truncado daqui a um mês ou dois, quando se descobrir a enésima derrapagem orçamental e o mais que enésimo buraco nas contas, a qual criará novas condições concretas, apresentadas como inesperadas e imprevisíveis.

Embora todos saibamos que nada disto é real.

Nuno Crato não deveria estar magoado com os professores, mas sim consigo mesmo. Por ter aceitado continuar tanto tempo nesta estratégia (?) ao ponto de se distinguir muito pouco de um qualquer outro Rosalino ou Moedas.

Fonte: http://educar.wordpress.com/