Agora veio acima a grande vergonha em que a escola pública portuguesa se tem transformado nos últimos anos. Uma escola que não é um local de aprendizagem e de formação das novas gerações, mas sim o local de violência, de manutenção dos alunos apenas para estarem ocupados e de mentira organizativa e pedagógica.
Na Escola Básica de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra, continua a imperar o silêncio. Mas agora vem acompanhado de apreensão. De ainda mais medo. Muitos docentes olham para o caso do professor de Música que se suicidou e revêem-se no seu desespero. Luís atirou-se da Ponte 25 de Abril a 9 de Fevereiro por não aguentar a indisciplina dos alunos. Não era caso único. Era a ponta de um novelo que, ao ser desenrolado, revela histórias de professores agredidos por alunos e pais. Insultos verbais. O último caso grave aconteceu na semana passada. Uma professora de Educação Visual desmaiou depois de ter sido empurrada pelos alunos. Teve um traumatismo craniano.
É claro que há escolas com mais problemas que outras, mas não é assim um fenómeno tão localizado e insignificante como muitos querem fazer crer. Os últimos casos passaram-se em escolas tão díspares como Sintra, Moita e Mirandela. Só não vê quem não quer. Será que um professor tem de ter uma personalidade de polícia de choque para que possa dar aulas na escola pública portuguesa?
As palavras do Sr. Director da DRELVT são simplesmente chocantes e ofensivas. Perante a situação do professor que se suicidou foi lesto em dizer que o professor apresentava fragilidades de personalidade há muito tempo. E então, isso apaga toda a situação de humilhação que o professor sofria no desempenho da sua profissão? Perdoa a inabilidade (ou mesmo crueldade) da direcção da escola que sabia o que se passava e nada fez para penalizar os alunos? Ou o que esse professor sofreu é normal que aconteça numa sala de aula?
Afinal de contas o que se espera dos professores hoje em dia? Que sejam bons profissionais do ensino ou mártires pela causa da indisciplina e má educação que reina em Portugal?
Tudo o que se tem passado prova que a escola que temos está muito doente. Grande parte desta situação advém dos quatro anos de mandato de MLR. Foram quatro anos de constantes ataques aos professores, à sua honra, que produziu um grande desgaste da imagem destes profissionais na sociedade. O estatuto do aluno que nos impingiu destruiu o que restava da disciplina e respeito pelos professores. Agora somos uns burocratas de papel. As faltas não servem para nada. Passamos a vida a elaborar relatórios e os alunos cada vez estudam menos e portam-se cada vez pior. Mas exige-se cada vez mais que haja melhores taxas de aprovação. Há uma enorme pressão por parte das direcções unipessoais (outra herança de MLR) para criar um sucesso artificial e maravilhoso – está tudo bem, mesmo que debaixo do tapete o lixo se acumule. Os Srs directores põem e dispõem, pressionam os professores e ignoram os problemas até ao limite. Tudo o que querem é que a escola esteja tranquila. Quando se sabe de algo na opinião pública logo vêm desvalorizar, senão abafar, o mal que se passa.
Grassa a indisciplina e com ela vem a violência, mais ou menos acentuada. O pequeno acto de indisciplina acarreta a pequena violência que, inevitavelmente, degenera no bullying. Que não haja ilusões.
Com o alargamento da escolaridade ao 12º ano vão aumentar os actos de indisciplina e de violência. Infelizmente as famílias encaram a escola como o local onde os filhos têm de estar enquanto trabalham e não o local de aprendizagem que os filhos precisam para se prepararem para o futuro. E é claro que com esta “desvalorização” familiar vem a desvalorização da sociedade e portanto há muitos alunos que não querem estar na escola, logo aumenta o leque de problemas.
A escola tem de se transformar, rapidamente, num local de trabalho e exigência, para que possamos ter ambiente de trabalho e dessa forma o nosso futuro como sociedade esteja garantido. Se não for este o caminho irão surgir mais casos de infelicidade na escola, mais professores e alunos vão ter vontade de terminar a sua vida escolar. Surgirão outros casos limite e, eventualmente, outros suicídios.
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