Hoje comemora-se mais um aniversário do 25 de Abril. O que significa esta data?
Para mim que agora tenho 50 anos, este aniversário não conta quase nada, de tão pálido que está. No entanto, quando em 1974 se deu o 25 de Abril, tinha eu 14 anos, foi uma explosão de alegria e de esperança. A revolução trouxe-nos a democracia, a liberdade e a ilusão de uma vida melhor.
Com dois irmãos mais velhos que tinham combatido na guerra colonial a revolução dos cravos significava que já não ia para a guerra. Para mim era significativo, mas mais ainda para a minha mãe que já tinha sofrido com a ida dos meus irmãos. Para mim foi também o “abrir os olhos” para uma realidade democrática que eu desconhecia por completo. Com a minha idade já tinha a noção da ausência de liberdade, do medo de falar, das prisões políticas e da PIDE. Não que nós tivéssemos qualquer actividade política, mas para o cidadão comum essas realidades existiam mesmo assim e havia um sentimento geral de medo.
A entrada em palco, nas nossas vidas, dos partidos políticos e dos seus lindos discursos trouxe a ilusão que tudo ia melhorar. E claro como jovem adolescente acreditei piamente. Da esquerda à direita todos usavam o nome do POVO e prometiam uma sociedade mais justa e próspera. Nunca acreditei nos extremos radicalizados, mas fui-me definindo como alguém que acreditava num “socialismo democrático” ou social-democracia. Tive várias tentações mas nunca me inscrevi num partido político. Numa perspectiva meramente de interesse pessoal creio que fiz mal. Muitos dos que entraram na política nessa altura estão hoje muito bem na vida…
Trinta e seis anos depois do 25 de Abril de 1974 é desilusão total. Acabaram-se todas as ilusões. É claro que estamos melhor que em 1974, mas a ilusão que se viveu esfumou-se. Hoje há uma enorme amargura por tudo o que poderíamos ter sido e que não atingimos.
Hoje vemos uma sociedade em que grassam as desigualdades sociais, o desemprego e um certo sentimento de democracia formal, mas que corresponde a uma democracia controlada pelas elites políticas que fazem do POVO o seu instrumento de poder. A esperança é uma palavra invocada pelos políticos mas que está tão gasta e baça que já não brilha. A saúde apresenta muitos problemas, a educação está de rastos, a justiça está ao serviço de uma oligarquia e penaliza mais as vítimas que os criminosos. A economia é um logro em que os trabalhadores sobrevivem mas que alguns aproveitam bem. A CRISE está instalada e é usada para diminuir direitos, regalias e nível de vida, de quem trabalha e faz disso o seu rendimento. Para outros a “vidinha” continua a ser uma maravilha. Aliás muitos dos que criaram a CRISE (por actos ou omissão incompetente) estão mesmo muito bem.
Pela minha parte, estou farto do discurso dos políticos e quero ver praticarem algumas coisas do que falam, quanto antes. Se estas alterações não produzirem um Portugal diferente, espero que seja para as minhas filhas ou netos. Não tenho grandes esperanças, nem ilusões, mas também não estou com a cabeça enterrada na areia. temos de continuara lutar e a insistir para que as coisas mudem e façam do nosso país um lugar mais justo.
Esta visão desassombrada da nossa realidade parece ser partilha por muitos portugueses (basta ver os comentários às notícias), mas nem sempre sabem canalizar a energia certa para solucionar os problemas. Às vezes é mais fácil caírem na mesquinhez do que perceber que temos, todos nós, de ser mais intervenientes e mais exigentes com os nossos políticos, não aceitando as sua ilusões e mentiras.




