Educação em Portugal

Julho 14, 2009

Os pais têm todo o direito de exigir professores competentes

Arquivado em: bom senso, disciplina, educação, pais — Zepovinho @ 6:24 pm

Os pais têm todo o direito de exigir professores competentes.

Não há dúvida. Esta questão é pacífica. Mas o problema da educação não está aí. Nas aulas que tive a ocasião de assistir, verifiquei o que já se sabia: os professores sabem como dar aulas, o que se passa é que, muitas vezes, não dispõem dos meios e condições humanas, técnicas e administrativas para o poder fazer com qualidade. Logo, genericamente, os professores são competentes ou, potencialmente, competentes.
Um dos maiores problemas está, por um lado, na deficiência dos meios e condições de trabalho e, por outro, na falta de reciprocidade na relação da maior parte das famílias e alunos com a escola e com os professores. Quero dizer, se os pais têm todo o direito de exigir competência e profissionalismo da parte dos professores, estes têm todo o direito de exigir dos pais dos seus alunos e também destes confiança e colaboração positiva com a escola e com os seus professores. Quando estes exigem dos seus alunos um comportamento adequado ao trabalho na sala de aula e reprimem com firmeza uma atitude descabida e, de imediato, um pai ou uma mãe, dando ouvidos acríticos às queixinhas do(a) filho(a), reage queixando-se de que o professor é “autoritário” ou “violento” ou “exagerado”, desautoriza completamente o professor e permite a continuidade do comportamento inadequado do seu filho, prejudicando-o e aos seus colegas.
E não se pense que a indisciplina é apenas a violência em meio escolar e que esta resulta das condições sócio-culturais das famílias. Podemos compreender e compreendemos, com certeza, que há muita gente com enormes dificuldades devido ao desemprego, trabalhos mal remunerados, etc. Mas ser pobre não é o mesmo que ser mal formado ou mal-educado! Há pessoas pobres dignas, respeitadoras e muito educadas, que aproveitam todas as oportunidades que a sociedade lhes oferece, incluindo a formação e educação em meio escolar, para poder sair da pobreza com dignidade. É uma mistificação pensar que os problemas de indisciplina nas escolas se devem à pobreza. O que se passa é bem diferente: instalou-se na sociedade portuguesa a ideia de que a democracia dá-nos, a todos, direitos e todos se sentem na obrigação de reclamar direitos sem a contrapartida e a reciprocidade dos deveres. E, portanto, a própria “educação” das crianças em boa parte das famílias, muitas delas da classe média, faz-se no sentido de que a criança tem direito a tudo, mas não tem o dever de nada. Explico-me melhor: a “educação” familiar, por razões que não importa aqui analisar, tem-se tornado demasiado permissiva. Grande parte das crianças é educada no consumismo com a Consola de Jogos, com a TV, com a NET, com o telemóvel de última geração, com o “Papá dá” para não ter que ouvir a berraria de um «Não!», com a Pizza, o Hamburguer e a Coca: habituadas a ter tudo e, raramente ou nunca, sem terem recebido um «Não». Não estão, de modo algum, preparadas para a frustração e partidas negativas que a vida nos prega. Quando chegam à escola, muitas crianças e adolescentes julgam que tudo lhes é permitido e nada lhes pode ser proibido. A educação, numa boa parte das famílias, tem sido hedonista e irresponsável, guiada apenas pela satisfação e prazer da criança, sem nunca se lhe exigir responsabilidades e contas pela sua liberdade. E isto nada tem a ver com a pobreza, mas com uma certa atitude perante a vida e a sociedade!
A nosso ver, a indisciplina daqui resultante, o julgar que pode usar o telemóvel, falar com o colega, sair do lugar, esconder por brincadeira o material escolar dos colegas, etc., sempre que lhe apetece, e desobedecer, sistematicamente, ao professor ou dizer, contrariando todas as evidências, «Mas eu não fiz nada! O(a) professor(a) é que pega comigo!», ou “O que é que eu fiz?!», etc., não resulta da pobreza mas, pelo contrário, dos excessos de uma “educação” permissiva que medrou nesta sociedade consumista, para a qual grande parte dos portugueses não estava nem está preparada, nem educada.

Logo, o Ministério da Educação, porque não fez o diagnóstico correcto do problema e pretendeu resolvê-lo pegando, exclusivamente, pelo lado dos professores, não resolveu problema nenhum pois pegou pela ponta errada! E toda esta situação é resultante, não da classe docente, mas de todo um conjunto de políticas erradas dos sucessivos governos, que a tal conduziram a sociedade portuguesa. Mas, como quem elege estes políticos e, indirectamente, estas políticas é a maioria dos portugueses, esta só têm que se queixar de si própria.

Zeferino Lopes, Prof. de Filos. na Escola Secundária de Penafiel, em 12 de Julho de 2009.

Fonte: http://educar.wordpress.com/2009/07/14/opinioes-zeferino-lopes/

Junho 1, 2009

Alunos do Leste europeu com fraca imagem do nosso sistema educativo

Arquivado em: disciplina, educação, europa, portugueses — Zepovinho @ 11:51 am

Algo que já sentíamos, como professores, acabou agora de ser comprovado através de uma tese de mestrado pelo professor António Sota Martins.

António Sota Martins inquiriu 153 alunos do 1º ciclo ao Secundário. Para a maioria deles (57%) o pior da escola é “o comportamento dos alunos portugueses”. De acordo com o docente, os alunos manifestaram não compreender “a indisciplina e os níveis de insucesso” dos seus colegas.

Na realidade é um paradoxo como estes alunos apesar de tudo conseguem por vezes ter melhores resultados a Língua Portuguesa que os alunos portugueses. É claro que a sua capacidade de trabalho e aplicação é diametralmente oposta à de muitos alunos portugueses.

Fonte:
http://www.profblog.org/2009/06/pais-dos-alunos-do-leste-dao.html

Maio 31, 2009

O mistério da sala de aula

Arquivado em: bom senso, disciplina, educação — Zepovinho @ 10:18 am
O mistério da sala de aula

31.05.2009, Daniel Sampaio

O incidente com a professora de Espinho adensa o mistério da sala de aula. O episódio levanta muitas questões: que leva uma professora tida como exemplar a ser alvo de um processo disciplinar? Como se compreende que os pais, conhecedores dos erros da docente, não tenham tido eficácia para alterar o comportamento que agora denunciam na comunicação social? E os alunos não poderiam ter manifestado o seu desagrado de modo frontal? Como se explica que alguns pais tenham incentivado o uso de gravações clandestinas, em vez de confrontarem a
professora ou apoiado os seus filhos numa crítica directa? Qual o papel da direcção da escola no assunto? Todas estas questões deverão ser esclarecidas pelo processo disciplinar em curso, para que o telemóvel não continue a ser o herói das nossas aulas.

Precisamos, contudo, de ir mais longe. No meio da indefinição da escola actual, continuamos a
trabalhar a indisciplina, quando nos deveríamos centrar na disciplina. Dito de outra forma: trabalhamos em cima da indisciplina do aluno, que às vezes até tenta “acertar” no comportamento, mas muitas vezes sem perceber porquê. Devemos explicar-lhe que a disciplina é uma das tarefas da autoridade, por isso é urgente trabalhar no sentido da liberdade e assumir a disciplina como uma necessidade para a sala de aula. Ou seja: para promovermos a liberdade crítica dos alunos em relação ao mundo, teremos de reorganizar a escola como um espaço
pedagógico organizado, onde faça sentido estar a trabalhar na aula de modo disciplinado. E, assim, uma gravação clandestina, à socapa, será sempre um acto contra a liberdade e, portanto, sem sentido no espaço escolar, por muito que o professor possa errar: impressiona, por isso,
que haja encarregados de educação que a promovam, qualquer que seja o pretexto.

A sala de aula terá de ser compreendida como um lugar dinâmico e contraditório de transmissão e circulação de saberes, porque o professor deixou de ser o único detentor do conhecimento: por isso a relação pedagógica estabelecida e a capacidade docente de transformar a turma num grupo de trabalho cooperativo são essenciais para o sucesso de todos. Nesta perspectiva, há muito que defendo que a “ordem” na sala de aula, o “portar-se bem” de que falam os professores, resultam muito mais se forem elaborados pelo conjunto e aceites pelo grupo, do que impostos por um regulamento não participado e elaborado em gabinetes. O Estatuto do Aluno, redigido pela tutela, fracassou na prevenção e controlo da indisciplina: onde deveria haver autonomia, em cada escola,
para a construção de um conjunto participado de deveres e direitos, surgiu um articulado elaborado a nível central; onde seria importante compreender e dar força ao sentido local do trabalho pedagógico organizado, vemos os professores perdidos a interpretar alíneas…

É por isso que a indisciplina é muitas vezes uma resposta ao controlo imposto pelo professor ou (pior) pelo Ministério: a acção clandestina subverte a ordem e arrasta consigo novos intervenientes, num jogo sem fim entre o “lado” da norma e o “lado” da transgressão.

A disciplina deve ser um objectivo educacional, porque é a garantia da liberdade e da autonomia na sala de aula e no pátio da escola. Se deixarmos uma criança entregue a si mesma, é pouco provável que seja livre e disciplinada, mas também tenho a certeza de que, se não for feito algum
trabalho para promover a interiorização da disciplina, esta nunca surgirá de forma continuada.

Sem o exercício da disciplina por professores e alunos não haverá apreensão do saber nem produção do conhecimento: por isso, após o esclarecimento de todas as dúvidas por
um processo disciplinar que se deseja isento, o incidente da escola de Espinho deverá ser o início de uma nova época de respeito por cada um e da construção de uma ética relacional na sala de aula.

Psiquiatra

Fonte: http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain.asp%3Fc%3DA%26dt%3D20090531%26id%3D16841152

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