18.06.2009, Rui Cardoso Martins
Em suma, um abuso e uma mistificação.
Muitas vezes pensei num caso da ciência política complexo: o debate entre Kennedy e Nixon, em 1960, quando John F. disse que nunca compraria um carro em segunda mão ao adversário. O futuro Presidente JFK ganhou à vontade para quem viu na televisão. No entanto, segundo as sondagens, no debate na rádio, que foi o mesmo, ganhou Nixon. A explicação, entre os especialistas, foi que na TV se viu o suor na testa de Nixon, que vestira uma roupa que se confundia com o cenário e escolhera mal a gravata, em suma, parecia um vendedor de automóveis em segunda mão.
Ontem tive oportunidade de me sondar nestes assuntos. Às voltas de carro pela cidade, a tratar da chamada vida, assisti (ouvi…) metade do debate do estado da nação, ou moção de censura, na rádio. Fora avisado de manhã, como outros portugueses que compram jornais, que o primeiro-ministro se transformara, do dia para a noite, num político “humilde”, que o Governo reconhecia erros e adoptava outro estilo.
A rádio distorce a mensagem e, por assim dizer, a figura duma pessoa, pois se Nixon ganhou o debate que perdeu com Kennedy, também José Sócrates me não pareceu humilde. A rádio mentia: o primeiro-ministro falava orgulhoso, confiante nos seus decibéis de voz, e ainda mais enervado com os irresponsáveis da oposição do que é costume. Foi traumático porque o director do PÚBLICO me convidara, horas antes, a escrever um “texto sério” sobre o debate e eu respondera que estava a escrever um episódio do Contra-Informação em que o Padre Milícias (Malícias, nos bonecos) ensinava ao primeiro-ministro a humildade franciscana. Que S. Francisco de Assis descobrira a virtude e falava com os lobos e os “irmãos passarinhos”, que o Zezito tentasse dizer “piu-
-piu”. E experimentasse a vida mendicante, a comer do que as pessoas dessem. Ao que o primeiro-ministro respondeu ser o que faz há anos, mendigar votos. Brincadeiras, não um texto sério.
Agora, ou a rádio mentia ou eu comprometera o trabalho. Ouvia o Governo dizer que a oposição é “infantil” e “inconsequente”, a moção de censura um “expediente inútil”, e esta coisa que fica bem quando se está no poder: “Os tempos difíceis exigem rumo certo, exactamente o contrário do que pede a oposição, exigem vontade e determinação. Não é tempo de brincar aos truques políticos, senhores deputados!”
Em casa liguei a TV e vi que o fato se destacava na cerejeira, ou carvalho envernizado, do cenário do Parlamento, e a gravata muito bem, muito bem. Suor, nada. Mas, quanto ao conteúdo e à voz, nada acrescentava à rádio, a não ser que a oposição também montara um “abuso” e uma “mistificação”.
Isto quer dizer que, mais do que o computador Magalhães, os socialistas deram ao mundo uma nova palavra “humildade”, bastante portátil.
A minha filha entrou com a última gazeta da escola. “A política é implicar as pessoas”, escreveu uma criança. “Os grupos políticos têm diferentes opiniões sobre as coisas”, disse a minha filha.
O que uma criança de oito anos expressa limpidamente nem sempre é visto com humildade pelos grupos políticos. Agradeço a todos os que leram este texto, já tive dias melhores e vós também, imagino. Mantenham o rumo.