É impressionante como este governo tem o apoio de muita da comunicação social. Colaboram em tudo o que pode passar uma mensagem subliminar, cínica e mentirosa, enganado tudo e todos com a sua aparente simplicidade e objectividade.
Há que passar para a opinião pública a ideia que os professores estão zangados com a ministra porque esta os faz trabalhar mais e lhes retirou os privilégios de que gozavam. É uma pobre e indefesa criatura que nem pára para comer e trabalha para o bem comum fazendo tudo aquilo que devia ter sido feito por outros mas não tiveram coragem para tal. Não questionam as alarvidades que ela pronuncia sobre as escolas e a educação. Aceitam pacificamente tudo o que ela diz sobre a educação nos outros países europeus.
Este fim-de-semana tivemos dois exemplos do que acabei de referir. Uma entrevista do Correio da Manhã e um artigo de opinião na revista do Diário de Notícias. Ambas publicadas no passado dia 20.
No caso do Correio da Manhã impressiona a forma aprofundada e preparada como a entrevista é feita. Nota-se que o jornalista (António Ribeiro Ferreira) sabe do que pergunta e estudou bem a lição. Ajustando as perguntas ao discurso da mulher que “admira” e que “tem feito um grande trabalho no Ministério da 5 de Outubro” e tem “tomado um conjunto de medidas que eram necessárias há muitos anos e que por falta de coragem política foram sendo sucessivamente adiadas“. Admirável!
Mas atenção que o jornalista afirma que “…as opiniões, como é óbvio, não interferem na forma como as questões foram colocadas a Maria de Lurdes Rodrigues“. uma ministra que “não pára, muitas vezes nem para almoçar“. Novamente qualifica a senhora ministra como “Uma mulher determinada, inteligente, que percebe bem as razões que levam os professores para a rua. Nunca, em trinta anos, alguém lhes impôs princípios que são hoje universais.” Fantástico. Admirável. Quase que sinto vontade de votar nesta senhora…
Ficamos a saber algumas coisas nesta entrevistinha:
- A ministra não chantagiou os professores ameaçando os contratados, mas apenas clarificou a situação;
- Os professores não precisam de ser um corpo à parte da função pública;
- As associações sindicais criaram nos últimos anos um corpo homogéneo e os professores são muito diferentes;
- Os professores funcionavam completamente à solta;
- Com a ministra esta situação mudou, não deixando para os sindicatos a decisão política;
- A reforma da gestão das escolas e o estatuto do aluno é muito importante;
- A repetência e o chumbo são os elementos mais facilitistas do sistema educativo;
- Os chumbos prejudicam muitíssimo a nossa posição no PISA;
- Hoje há muito conhecimento, a pedagogia evolui muito;
- O Plano Nacional de Leitura está a pôr a descoberto a falta de preparação dos professores?
- As aulas de substituição reduziram a indisciplina;
- Há mais trabalho. Está tudo a trabalhar;
- A escola é um local muito pacífico e a indisciplina está a baixar;
- Os casos de violência são gerados no exterior da escola;
- Com menos dinheiro e menos pessoas conseguiu-se melhores resultados;
Enfim, uma entrevista a não perder, quanto mais não seja para ver até que ponto pode chegar a intoxicação, o cinismo e a técnica de bem dominar a comunicação social.
O outro caso digno de nota foi um artigo de opinião da jornalista Fernanda Câncio no Notícias Magazine. Mais uma obra prima da mensagem subliminar. Uma vez mais percebemos que os professores têm privilégios e não querem ser avaliados e que deviam ser um exemplo para os alunos mas não são.